segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

aqueles dois

aqueles dois entre gavetas duas gaivotas adoecidas duas paisagens cor de mel aqueles das teclas soltas no tempo confinados no tempo das camisas e gravatas endireitadas de suor sublimado do desejo de suar mais um pouquinho dois homens e vinis entre violões mudos corpos mudos borbulhantes de sublimação entre os anos de digitais e contabilidades infiéis aos números menos imaginários e naturais aqueles conjuntos vazios de poesia e de asas do poeta que fazem rastejar o que era pra ser dançado então vem o mofo das relações burocráticas e corrói aqueles dois corpos-gaivotas rastejantes de não poder voar dançar no quadrado cinza das gavetas dos arquivos públicos privados de poesia e de cor.

terça-feira, 28 de junho de 2011

congresso internacional para novos porcos e afins

menina não se esqueça de escovar os dentes podres que eu te dei antes de ir pra cama e ver seu pai foder a fada e enfiar a faca na geleia de amendoim que sai da sua boca tão pura tão seca não se esqueça de afogar o gato pra que o sapo venha e vire um príncipe bem jovem frio e calculista pra te cantar uma linda canção de guerra que fale de meninas e maçãs talvez de evas pra você dormir de bruços e acordar e morrer como faz todos os dias de manhã depois da primeira cicatriz depois de dar milho às galinhas de dentro do seu pequeno e jovem útero rosa onde você esconde suas pulgas e seus calafrios para o almoço que cozinha na varanda do galinheiro embaixo do porco que ri da sua dança do seu desespero de menina invadida.
na minha casa minha vida
mais um corpo branco na caixa entope
minha pia suja de preguiça
escapa o ar pro esgoto ir

furado meu estômago engole
a fuga de mais um gato preto.




Dieta para auto-deterioração das flores da cidade

cometa cidades,
ouça: (à)cidade respira
ácida deteriora e pinga
escorre/cida


suicidas modernas
as flores da cidade dilatada


Tudo podem naquele que se for.





quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

boca de ouro

o herói das gentes
carrega na boca o poema
da mocidade perdida
boca de ouro
sang'latino
comocão.

o herói das gentes
se curupira de verd'amarelo
samba a ferida de pé
que da sola toca um sol

o herói se macunaíma para o mundo
e desmunda tudo pelo lábio da mão



Soy loco por ti américa

Une chaise rouge


Uma cadeira vermelha
sentada na beira de mim
enxerga com veias
o subsolo da pele
a cadeira beira o movimento
mas silencia o passo


(,)
quieta estanca suas unhas sobre o chão.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Alice Maravilha

Alice da cidade maravilha
menina veneno
do mundo pequeno
seus braços estão abertos demais.

Alice maravilha
menina do morro
da toca
do vento
do sonho de vento.

Alice maravilha, teu terreiro, teu delírio.
Alucina-me.

Me desfaço dos aplausos
das luzes e da ação
a voz
a maquiagem
o texto escorreu
e o artista da fome morreu de tédio.
Sentada na cidade
percorro seu corpo
suas curvas
sua pele cinza, dura.
Cidade que escorre
concreta de ser.
Células mortas
pela calçada
flutuantes delírios.
Escuto de longe a sua dor
preencho de asfalto seus poros abertos.

Como criar para si a cidade sem órgãos?
Da barriga pouco prenha
nasceu Maria Flor:
pequena de corpo
não fazia tamanho

Quando nasceu Maria Flor
não respirei sete dias
sete noites não comi
esqueci o sonho

Nasceu sem choro
mergulhou no mundo torto
deu de cara no chão:

Maria Flor ainda não sabia voar.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Das pequenas mentiras que inventamos pra viver

E foi ali, na sala de espera do atendimento psicológico da cadeia, que Lúcia conheceu Ele: seu futuro marido, também condenado por sete anos de prisão. Casou-se um mês depois, ainda estando presa, mesmo com todo o concreto que dividia suas celas. Desde então, passou a receber correspondências profanas re-li-gi-o-sa-men-te em todo santo domingo. Ele, que por ser surdo-mudo inventou um crime qualquer pra se defender da violência que é viver.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

trecho para pequenas estátuas

Mãezinha do céu,
eu não sei rezar
só sei dizer
que eu quero te
amar.


Assim como cantou José durante o primeiro coito sagrado, me ajoelho aos teus pés para lavar-te com a língua, para curar-te.

Mulher nascida de minhas costelas: hoje escravizo-te como mãe.


(...)

Monólogo para moças de fino trato

Rezam Bernardas em busca de muros,
in nomni patris
in nome do luto
no silêncio das coisas exatas,
Cantam Lúcias, Gertrudes e Madalenas (Tantas,tantas, tantas...)
o canto, lírico de culpas

Não vêem que estamos todas doentes?

Mãezinha, hoje montrosmergulhadores atravessaram os muros:
queimaram a porca acizentada e seus peixes de papéispardos.

Mas não acreditaria que eles atravessariam tão rápido
Contudo, não sou velha:
Um muro maior se erguerá, assim na terra como nos céus.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Qualquer dia me conto uma história
Dessas simples de sorrir
que se possa mastigar
que eu não queira cuspir.
Com palavras de rimar
Com palavras pra despir.
Se eu não sorri, não foi por querer.

saudades de ser uma pessoa.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

melhor idade

Estou gasta de promessas laranjas
meus olhos se acham cinzas
quase não escuto
fico rouca só pensar em dizer

Ainda posso soluçar
quando tenho fome Estou bem no meio do.

[Janeiro tem pequenas rugas de sol]
Lacrei todos os poros abertos nada entra além talvez o cheiro de poeira abatida não mais forçarei sorrisos pelas narinas QUERO GARGALHAR COM O CU
para o próximo ano nada de poros abertos ou poesias fechadas nenhuma fratura exposta em vão é como se enterrar na superfície agora superficial tão superfacial
farei também uma cópia da chave de casa

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O dia que a poesia morreu em mim.

"Devemos saber que surrar a esposa é uma punição pela lei religiosa islâmica. Ninguém pode impedir essa prática pois ela foi permitida pelo criador do homem.
Quando você compra um eletrodoméstico ou um carro, você recebe um manual, um catálogo que explica como usá-lo.
O criador do mundo mandou esse livro, o corão. Para mostrar ao homem os caminhos que ele pode escolher.
Nós não temos que ficar com vergonha diante das nações do mundo, que ainda estão na fase da ignorância e não aceitam que a surras sejam parte da nossa lei religiosa. (...)
O corão disse: Bata nelas. E esse verso é de uma natureza maravilhosa."

Homem islâmico em um sermão de sexta-feira na TV do Qatar.

pós ID

No verde-manso do papel
não vejo poros abertos de suor, ou
a afta que dissolve a língua
a unha que encrava o toque.

O verde-manso é raso e não sangra:
enumera estático o meu não-sorriso 3x4

[ grandes corpos não cabem em quadrados]

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Eumulher
Eupele
Eupela mulher
pela pele
pelo amor de deus, mulher.

[pelo amor à costela de adão, eufemininohoje.]

para Hilda Hilst

A porca-menina
criou asas de papel pardo.
Acabou chovendo,
acabou atriz.

[Não quero mais saber de coisa muito viva]

Porca ruiva, acinzentada:
castanho-loira.




E começam os planos
no papel sem tinta
da vida que finjo querer.

[coração em branco?]

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Nada como sair
e ventar por aí:
Cortar as peles
com arte
secar a língua
com poesia.

(O perigo mora dentro
e venta feito fogo.)
o passo que passa
que pé(de) paz
e dança o caos
que sobe ao chão
que desce ao céu.
(na horizontal me posso voar)
Girar
Saltar
gritar com os pés.
(meus verbos só sabem dançar)
O movimento
me faz corpo,
cores.
Tira o verbo
da língua
[e põe na pele.
(meu corpo é livro
livre)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sobre amar.

Vivo a poesia deste momento.

sábado, 30 de agosto de 2008

Sobre o que restou de lá

De longe
se podia ver
a dança do que sobreviveu.

A poeira na lembrança
de um quintal
sem dor ou pecado.

Ao longe se podia ver
nos olhos da menina
a dança de flores castanhas
de um passado vendido/roubado.
...Lá fora, cada vez menos são feitos milagres.

Das rugas e raízes

Podia ter o silêncio das rugas
e inventar palavra calada-de-luz,
mas só consigo examinar acentos
e assentar o verbo.

[podaram minhas raízes]
O princípio era o meio:

no caminho tinha a pedra
nas casas tinham grades
na chuva colocaram ácido.

O sentido era o fim.